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Senado dos EUA tenta transformar em lei barreira contra carros chineses

Projeto bipartidário amplia restrições a veículos conectados ligados à China e pode atingir até a Mercedes-Benz; votação acelerada foi travada após objeção de senador republicano

Por Guilherme Pires7 min de leitura
Senado dos EUA analisa projeto que pretende transformar em lei as restrições a veículos e tecnologias automotivas ligadas à China.
Senado dos EUA analisa projeto que pretende transformar em lei as restrições a veículos e tecnologias automotivas ligadas à China. (Foto: Architect of the Capitol/Domínio público)

O Senado dos Estados Unidos tenta transformar em lei as restrições que já dificultam a entrada de carros chineses no país. A iniciativa ocorre justamente quando o presidente Donald Trump sinaliza disposição para permitir que fabricantes chinesas produzam veículos em território americano, desde que empreguem trabalhadores locais.

Os senadores Bernie Moreno, republicano de Ohio, e Elissa Slotkin, democrata de Michigan, são os principais articuladores do Connected Vehicle Security Act of 2026, projeto que pretende proibir a importação, fabricação, venda e revenda de determinados veículos conectados, softwares e componentes vinculados à China e a outros países classificados pela legislação como adversários estrangeiros.

Na última quinta-feira (24), a tentativa de aprovar o texto no plenário por consentimento unânime esbarrou na objeção do republicano Rand Paul. Como esse procedimento exige a concordância de todos os senadores, uma única oposição é suficiente para barrar a tramitação acelerada. Moreno e Slotkin afirmaram que pretendem continuar as negociações para tentar levar o projeto novamente ao plenário na próxima semana.

Projeto já passou por comissão do Senado

O Connected Vehicle Security Act of 2026, identificado como S. 4429, foi apresentado em abril e aprovado por unanimidade pelo Comitê de Comércio, Ciência e Transporte do Senado em julho. Depois disso, o texto foi encaminhado ao calendário legislativo da Casa.

A proposta busca colocar em lei restrições que hoje se baseiam em regulamentação do Departamento de Comércio dos EUA. O projeto também amplia e consolida mecanismos para que o governo americano identifique e bloqueie tecnologias, componentes e transações consideradas de risco para a segurança nacional.

Na justificativa, os autores afirmam que veículos conectados podem coletar e transmitir informações como localização, dados pessoais e informações operacionais. O argumento dos defensores da medida é que tecnologias vinculadas a governos considerados adversários poderiam representar riscos de segurança e também afetar a indústria automobilística americana.

O texto prevê implementação em etapas. As restrições envolvendo veículos e determinados softwares começam a valer a partir de 2027, enquanto parte das restrições relacionadas a hardware está prevista para 2030, com regras específicas e períodos de transição para determinadas tecnologias.

Trump admite carros chineses produzidos nos EUA

A movimentação do Senado vai em uma direção diferente daquela sinalizada recentemente por Trump.

Em entrevista à Fox News no último dia 11, o presidente americano afirmou que não seria contrário à instalação de fábricas de montadoras chinesas nos Estados Unidos, desde que os veículos fossem produzidos por trabalhadores americanos. Trump comparou a possibilidade ao que aconteceu com as fabricantes japonesas no mercado americano.

Ao mesmo tempo, Trump se disse contrário à produção de veículos chineses no México com posterior exportação para os Estados Unidos.

A posição coloca a Casa Branca diante de uma questão que pode se tornar relevante caso fabricantes chinesas tentem entrar no mercado americano por meio de investimentos produtivos locais. O projeto em discussão no Senado procura estabelecer as restrições em lei, reduzindo o espaço para mudanças de política apenas por decisão administrativa.

Fabricantes e associações do setor vêm defendendo a manutenção das barreiras. Em carta enviada no dia 17 de setembro, antes da visita do presidente chinês Xi Jinping a Washington, seis entidades que representam montadoras, fornecedores e concessionárias pediram que o governo mantenha as restrições às fabricantes chinesas, citando preocupações econômicas e de segurança nacional.

Xi foi recebido na Casa Branca justamente na quinta-feira (24), mesmo dia em que Rand Paul travou a votação acelerada do projeto no Senado.

Donald Trump e Melania Trump recebem Xi Jinping e Peng Liyuan na Casa Branca Donald Trump e Melania Trump recebem Xi Jinping e Peng Liyuan na cerimônia de chegada à Casa Branca, em 24 de setembro (Foto: Casa Branca/Divulgação)

Restrição de Biden já praticamente fechou o mercado

O projeto de lei não parte de um mercado aberto aos carros chineses. O governo de Joe Biden já havia criado uma barreira regulatória específica para veículos conectados.

Em janeiro de 2025, o Departamento de Comércio dos EUA publicou uma regra final proibindo a importação de determinados sistemas de conectividade veicular de origem chinesa ou russa, além da importação ou venda de softwares de conectividade e condução automatizada com vínculo suficiente com esses países. A regra entrou em vigor em março daquele ano.

Além das restrições tecnológicas, os Estados Unidos elevaram em 2024 para 100% a tarifa adicional sobre veículos elétricos importados da China, dentro das medidas comerciais adotadas pelo governo Biden.

Na prática, a combinação de tarifas e regras de conectividade tornou extremamente difícil a entrada de fabricantes chinesas de carros de passeio no mercado americano. O novo projeto pretende dar caráter legislativo permanente a parte dessas restrições e ampliar seu alcance.

Mercedes-Benz pode ser afetada pela regra de 15%

Um dos pontos mais controversos do projeto é uma regra relacionada à participação acionária chinesa.

O texto discutido na comissão barra empresas com mais de 15% de participação chinesa, o que pode atingir fabricantes de veículos conectados de fora da China. O caso da Mercedes-Benz chamou atenção porque dois grandes acionistas chineses somam participação superior a esse percentual.

De acordo com a estrutura acionária divulgada pela Mercedes-Benz, o BAIC Group possui 9,98% das ações da empresa, enquanto o investidor Li Shufu, fundador da Geely, detém 9,69% por meio da Tenaciou3 Prospect Investment Limited. Somadas, as duas participações chegam a 19,67%.

A situação é particularmente relevante porque a Mercedes-Benz não depende apenas de importações para atender o mercado americano.

Fábrica da Mercedes-Benz emprega 5.800 pessoas no Alabama

A Mercedes-Benz mantém uma grande operação industrial em Tuscaloosa, no Alabama. Segundo a empresa, a unidade emprega aproximadamente 5.800 trabalhadores e já produziu 5 milhões de veículos desde o início das operações, em 1997. Cerca de 60% da produção é exportada para outros mercados.

Linha de montagem de SUVs Mercedes-Benz GLE na fábrica de Tuscaloosa, no Alabama Linha de montagem do GLE em Tuscaloosa: cerca de 60% da produção da fábrica é exportada (Foto: Divulgação/Mercedes-Benz)

A fábrica produz atualmente modelos como GLE, GLS e GLE Coupé, além de versões Mercedes-AMG e Mercedes-Maybach e dos elétricos EQE SUV, EQS SUV e Mercedes-Maybach EQS SUV.

A Mercedes-Benz também anunciou investimentos de US$ 7 bilhões em suas operações americanas até 2030, dos quais US$ 4 bilhões serão destinados à fábrica de Tuscaloosa.

Por isso, a regra acionária virou ponto de atenção durante a análise do projeto. O presidente do Comitê de Comércio do Senado, Ted Cruz, alertou que a disposição poderia atingir a Mercedes-Benz e afirmou que o texto precisaria ser alterado antes de virar lei. Moreno, por sua vez, disse que a fabricante teria até 2030 para se adequar e que poderia pedir exceções durante esse período.

Moreno também declarou que o objetivo da proposta não é retirar a Mercedes-Benz do mercado americano. A questão, portanto, está em como o texto final tratará fabricantes estrangeiras que têm participação relevante de investidores chineses, mas mantêm produção, empregos e investimentos nos Estados Unidos.

Próximo passo depende de acordo no Senado

O próximo movimento será a tentativa de Moreno e Slotkin de obter o apoio de Rand Paul para usar novamente o procedimento de consentimento unânime. A objeção impediu a votação acelerada, mas não encerrou a tramitação do projeto.

O texto já passou pela comissão e permanece no calendário legislativo. Caso avance no Senado, ainda haverá etapas posteriores, incluindo a análise pela Câmara dos Representantes, antes que uma eventual versão final possa se transformar em lei.

Linha de montagem de picapes elétricas GMC Hummer EV nos Estados Unidos Linha de montagem do GMC Hummer EV na fábrica Factory Zero, da GM, em Detroit: indústria americana defende a manutenção das barreiras aos chineses (Foto: Divulgação/GM)

O episódio mostra duas linhas de política automotiva que hoje coexistem em Washington: enquanto parte do Congresso trabalha para consolidar e ampliar as barreiras contra veículos e tecnologias ligadas à China, Trump admite a possibilidade de que fabricantes chinesas produzam localmente nos Estados Unidos. A definição sobre o alcance dessas restrições dependerá tanto da tramitação do projeto quanto da relação entre o Congresso e a Casa Branca.

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